Estava frente à porta, pressionou o dedo na campainha e aguardou. Era o protocolo oficial da maioria das pessoas que queriam entrar num prédio, casa, seja edifício que for. Não conhecia nenhum outro protocolo emergencial para adentrar lá, retificando... Reconhecia que existia um, mas era ilegal e não queria correr o risco de falhar por tão pouco.
A edificação não tinha outra porta, nem janelas, apenas um gigante muro branco, a porta que o dividia e duas pilastras que adornavam a porta, o que lhe conferia, numa olhada superficial, um aspecto frio e imponente, quase que inalcançável, se não fosse a pela existência da porta.
Já começou a sentir a impaciência brotando pelas pernas, apoiou-se num pé e estabilizou com outro. Apurou a vista, através da porta, procurando se vinha alguém, mas não teve êxito. Os ladrilhos da porta eram fumê, só conseguia ver seus olhos espelhados.
Quanto o tempo havia passado? Dez minutos? Muito... Consultou o relógio e por cálculos rápidos concluiu que foram dois... E meio, para ser mais exato. Não lembrava se havia protocolo para intervalos de tocar a campainha. Então tocou novamente e aguardou.
Estava entrando em pânico, tinha um propósito para está ali, atrás daquela porta, tinha um sonho para realizar e tudo dependia, no momento, da porta ser aberta. Conseguia sentir o peso do olhar das pessoas, o que lhe causou um pequeno incomodo, virou-se e encarou alguma pessoa que passava pela rua. Não conseguia ver sua face, parecia desfigurada, translúcido igual aos ladrilhos da porta, a única coisa que lhe restava seriam os olhos desse desconhecido ou dessa desconhecida o encarando. Achou que estava zombando, com esse olhar tão desdenhante. Sentiu vontade de gritar: Ei! Estou aqui por meu sonho. Mas quando puxou ar,para fazê-lo, os olhos já haviam partido, cruzado a rua, sumindo da sua vista.
Voltou-se novamente para a porta e suspirou, uma centelha de desistência nasceu na sua mente, mas para certificar-se, dedou a campainha mais insistente do que da última vez. Esperou... E só ouviu um silêncio sepulcral, maior que da última vez. Talvez todos tivessem saído para almoçar, mas não passava da nove e meia. Ou melhor, todos foram tomar um café numa sala com isolamento acústico.
Assustou com um carro barulhento que passava por ali, quando voltou a atenção para a porta, teve a sensação de ouvir um barulho dentro do prédio, um “clic”, talvez, não tinha certeza. Encarou a porta e aproximou-se como um médico para auscultar o paciente doente. Como a superfície era fria, fidedigna à lâmina de metal. Com a orelha colada, num dos ladrilhos de vidro da porta, apurou a audição e buscou pelo mesmo som que supostamente havia ouvido. Esperou, porém, a porta continuava com seu voto de silêncio, desistiu de osculá-la e voltou à posição inicial. Tinha de haver algo de errado, para ninguém não se manifestar e agora com sua natureza curiosa atiçada, iria arranjar uma forma de descobrir.
Fixou os pés como se fosse um guerreiro, esvaziou sua mente de possibilidades remotas da maldita porta não abrir, se não iria acabar por enlouquecer criando diversas hipóteses. Iria abrir aquela porta que qualquer modo, claro que com ressalvas, sem violências ou barbáries. Era uma pessoa do século vinte e um, tecnicamente civilizada ou tecnologicamente, seria o termo melhor, onde não se tinha mais de utilizar da tecnologia rudimentar. Apertou a campainha e para garantir fechou o punho, inclinou-o e deu uma batida na porta, nem tão firme, mas num nível escutável. Torceu as mãos nervosamente como se fossem a maçaneta dourada, toda esculpida e trabalhada que adornava um dos lados da porta, ela conferindo-lhe um ar mais aristocrático.
Iria aguarda novamente, afinal, o que seriam mais alguns minutos? Tudo aquilo poderia ser paranóia da sua cabeça. Era muito absurdo para muita realidade e tinha plena convicção da funcionalidade das suas faculdades mentais. Chegara de tão longe para está ali. Perdeu a infância, para o trabalho, depois a família toda, para as doenças e a fome. Agora não podia perder a única coisa que o ligava a sua existência, seu sonho. Tinha de mostrá-lo para aqueles que saberiam apreciá-lo e sabia que por trás daquela porta estavam essas pessoas. Por vezes, cometeu o grande erro de falar do seu sonho para outros, estes, riam, debochavam, zombavam com dito escárnio. Por isso, começou a agir com esperteza e sutileza, ocultou seu tão querido sonho, no mais fundo que sua mente poderia alcançar. Assim, desenvolveu o dom de saber quais pessoas eram confiáveis ou não.
Despertando do devaneio, olhou para a porta, será que alguém havia se manifestado e não tinha ouvido por estar divagando? Não, nada havia mudado. Desesperou-se, o ar começou a faltar o peito e descontroladamente apertou a campainha intermediando com socos na porta, gritou, chamou, sacolejou a maçaneta, chutou uma das pilastras e por fim socou a porta com as duas mãos. Por um átimo parou, a fim de não perdeu o controle total ou definitivamente sua sanidade. Congelou-se numa expectativa e agonizante. Esperava doentiamente por um barulho como resposta, ainda tinha esperança que a porta iria abrir, tinha de ser feito, pelo seu sonho, por sua existência, aceitava qualquer manifestação.
No entanto, acabou por se frustrar novamente. Toda a resposta que conseguiu tirar da porta foi um silêncio humilhante, cruel e sádico. Não entendia como um simples pedaço de madeira, que um dia havia sido uma flexível e juvenil árvore poderia tornar-se algo tão rígido, mesquinho e soberbo, que finalmente barrou toda a sua existência. Era o fim. Deslizando, deixou-se sentar no degrau de qualquer jeito, elevou a cabeça e olhou para o céu, contrastante, azul e tranquilamente bonito. Era muito sol para um dia daqueles, onde sonhos estavam sendo destruídos. Não tinha motivos para ser forte.
Duas lágrimas grossas escorreram para seu rosto, sentiu uma liberdade explodindo no peito que não podia contê-la com as mãos, ela ia brotando, junto de mais lágrimas, fugindo e escapando. Só deu conta do que aconteceu quando a lágrima fugiu do rosto caindo pesadamente no chão.
Finalmente conseguira chorar, depois de tantos anos, já não se preocupava com as pessoas passando, muito menos com o que elas pensavam ou olhavam. Não conseguira alcançar sua meta, no entanto, conseguira finalmente se libertar do peso que carregava nas costas, nas dores que sentiu e guardou de recordação através das marcas.
Mas ainda tinha uma dúvida que lhe corroia. Como não havia de um único ser vivo dentro daquele prédio? Parecia uma caixa de Pandora, uma lâmpada com a saída do gênio entupida, uma charada intrigante e enfeitiçada. Já não sentia mais as lágrimas caírem e quando o sangue esfriou, finalmente sentiu a derrota pesou nos ombros. Enxugou o rosto ainda molhado pelas lágrimas, tendo a mão amiga da desistência sendo-lhe estendida, não tinha mais o que fazer e agarrou-a, levantando, mesmo assim ainda cambaleou.
Tinha de sair dali, não havia mais o que fazer. Ganhara poucos segundos de liberdade e perdera toda sua vida junto do tão precioso sonho. Sacudiu a poeira que grudava no tecido da calça. Numa última olhada para a porta, àquela casmurra, reparou em algo novo, um pequeno detalhe, uma placa que praticamente camuflava junto a parede do prédio, nela, havia escrito: Só abrimos às 13 horas.
RafaCarol
18 de maio de 2011.
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